Não tenho roupa…
Estilo, Reflexões

Não tenho roupa…

Não ter nada para vestir – mesmo comprando uma peça de roupa toda semana – é um mal antigo que afeta ainda hoje grande parte das mulheres modernas. Tipo catapora que, a despeito de toda a evolução humana e tecnológica, foi, até pouco tempo atrás (agora tem vacina!), uma sentença dada a todo mundo logo ao nascer: um dia você vai passar por isso!

Parada diante do meu guarda-roupa lotado, as cores e tecidos se mesclam numa confusão de possibilidades, de onde emerge um labirinto que parece não ter saída: o das infinitas combinações. Todos os caminhos para fora dali estão obstruídos: seja por uma pilha de calças, por 100 pares de sapatos ou pelos 20 biquínis adquiridos ao longo dos últimos 20 verões.

Pôr-se dali para fora dependeria apenas de limpar o caminho, livrando-se dessas coisas todas. Mas talvez por apego ou teimosia, ao invés de abrir passagem, opto, geralmente, por me fechar um pouco mais, dando ao labirinto mais um item para tampar o filete de luz que mostrava a saída: “comprei mais uma blusinha de qualidade duvidosa porque não tinha nada para usar com meu shortinho jeans”.

O quão mais fácil seriam nossas vidas se a gente tivesse apenas uma opção de roupa todos os dias?! Quantos minutos a mais poderíamos dormir se toda manhã não começássemos o dia com um processo decisório que pode custar tempo, dinheiro e nosso humor!? Quantos dias de fúria evitaríamos se todos os dias soubéssemos que o look nos cairia perfeitamente bem!? Pode parecer loucura para quem compra um vestidinho para a “festa da firma”, mas tem muita gente que simplificou a forma de se vestir, apenas porque tinha coisa mais importante com o que se preocupar. Gente tipo Steve Jobs, Albert Einstein, Barack Obama, Karl Lagerfeld e Mark Zuckerberg.

Nos últimos tempos eu tenho notado duas coisas: meu closet cada vez mais cheio e eu cada vez mais igual. Talvez porque eu não tenha tempo de ficar no meu labirinto, a explorar as suas infinitas possibilidades. Talvez porque eu tenha encontrado finalmente a minha “assinatura de estilo” (saia midi, vocês já sabem) e não queira conturbar a minha já conturbada vida com desafios fashion que só vão me levar a “looks do dia” frustrados.

Devo confessar que essa constatação me assusta um pouco. Primeiro porque vou ter que abrir a caixa de pandora (aka meu closet) para limpar o caminho e me despedir de antigos amores, sem a certeza de achar a saída. Segundo porque o meu compromisso diário com vocês faz com que eu me sinta na obrigação de inovar sempre e tornar cada dia realmente único.

De dentro dos meus caminhos obstruídos, pelo menos meus pensamentos ainda conseguem ser livres o bastante para fazer essa reflexão. Não quero servir às minhas roupas, quando são elas que devem servir a mim. Não quero o desconforto de calças justas e sapatos apertados, pois a beleza não pode custar minha paz de espírito. No final, acho que estou numa fase da vida em que cada dia importa… Não quero ter a felicidade como destino, mas a quero como companheira de viagem.

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